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  • Annelise Castelli

Simplexity: a incrível missão de extrair a simplicidade da complexidade.

Gosto muito dessa expressão que cruzou o meu caminho há relativamente pouco tempo.

Simplexity na minha opinião é a prima do Minimalismo.

Mas tem um significado bem mais interessante e profundo. Um conceito híbrido que carrega na essência, a interação entre duas colegas: a Simplicidade e a Complexidade.

Simplicidade e Complexidade são expressões importantes no mundo contemporâneo e por vezes, indissociáveis. Buscamos a simplicidade, mas não vivemos sem a complexidade.

O termo Simplexity pode ser compreendido como um fenômeno que propõe justamente essa complementaridade.

A ideia central da expressão Simplexity é a de extrair da complexidade a sua essência, de uma forma positiva. E em grande medida, visando a solução de problemas.

É um conceito bastante plural, multidisciplinar. Segundo especialistas, o termo teria sua origem na Teoria Geral de Sistemas, que por sua vez também é aplicável em diversos campos do conhecimento, tanto nas ciências humanas, como nas exatas e naturais.

Mas o conceito de Simplexidade tem sido mais aplicado na Filosofia, na Matemática, nas Ciências Sociais e no Design.

Simplexity é reconhecer que o mundo é complexo (e cada vez mais) e que precisa ser depurado, filtrado, para ser compreendido.

Simplexity é a arte de tornar mais fácil, coisas que são complicadas, desenvolvendo uma resposta simples a um problema complexo. Algo que parece ser muito útil em tempos modernos.

Porém, vamos ver ao final, que esse processo nem sempre é fácil. Ou seja, chegar ao simples não é exatamente fácil.


Como diria Steve Jobs: It takes a lot of hardwork to make something simple. (É preciso muito trabalho para fazer algo simples).

Ou como o escritor iuguslavo Dejan Stojanovic: The most complicated skill is to be simple. (A habilidade mais complicada é ser simples.)

Ou até mesmo como o pintor Vincent Van Gogh: How difficult is to be simple. (Como é difícil ser simples.)

E mais que isso: segundo o famoso escritor e designer John Maeda: a interação entre complexidade e simplicidade pode ser a força motriz para a inovação.


Interessante, não?


Depois de realizar uma pesquisa sobre o tema, que eu diria.... não foi nada simples, nem fácil (desculpa o trocadilho, não resisti), escolhi alguns pensadores e teóricos que podem nos dar uma luz sobre a ideia de Simplexidade.

Alguns, além de definir e pontuar a sua visão sobre o tema, também propõem formas de aplicá-la. Outros vão além e fazem ressalvas (como no caso do pesquisador Michael Reiss) e outros estão mais voltados ao processo de busca da simplicidade em si, como o próprio John Maeda e a escritora Juliana Hobsbawm.

Depois, vamos falar sobre sua aplicação no Design e resgatar algumas personalidades emblemáticas como Dieter Rams, Ora Ito, Steve Jobs e Susan Abbott (essa, talvez menos conhecida).

Na sequência, gostaria de trazer algumas marcas e analisar como se posicionam justamente utilizando a relação entre complexidade e simplicidade.

E por fim, proponho o meu olhar sobre como podemos usar a ideia de Simplexidade em nossas vidas.

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Ficou compriiiido, mas espero que gostem e que possa ser útil.


O que é Simplexidade?


“The New Simplicity is Simplexity”. Susan Abbott (designer).
"Simplexidade pode ser definida como a combinação de simplicidade e complexidade dentro do contexto de uma relação dinâmica entre meios e fins”. Philippe Compain (engenheiro químico).

JACK COHEN & IAN STEWART

The Collapse of Chaos. Discovering Simplicity in a Complex World.


Em 1994 o biólogo inglês Jack Cohen e o matemático Ian Stewart lançaram o livro “O Colapso do Caos. Descobrindo a Simplicidade em um Mundo Complexo”, uma das principais referências no estudo do tema.

Nessa obra, os autores explanam suas ideias sobre a Teoria do Caos, começando pelo seguinte questionamento: “se o universo é caótico, de onde vem a simplicidade existente na natureza”? Investigando como a complexidade surge na natureza, analisam como a vida acaba superando o caos e a entropia, para criar uma ordem em desenvolvimento.

Passando por diversos temas da ciência moderna, abordam questões centrais sobre ordem, caos, reducionismo e complexidade. E resgatam o princípio de como o simples leva ao complexo e, inversamente, como o complexo pode levar ao simples.

E nesse contexto, os autores introduzem dois conceitos: a Cumplicidade e a Simplexidade. Cumplicidade traz a ideia da evolução de uma forma convergente: quando regras diferentes podem gerar características semelhantes (em cumplicidade). Já no conceito de Simplexidade está intrínseca uma ideia anti-caótica. É quando surgem recursos simples em um único sistema complexo.


ALAIN BERTHOZ

Simplexity: Simplifying Principles for a Complex World.

Na mesma toada em 2012, o neurocientista Alain Berthoz em sua obra “Simplexidade: Simplificando Princípios para um Mundo Complexo”, também propõe o conceito de Simplexidade, tendo como base a observação da natureza.

Pois segundo o autor, em certo sentido, a história dos organismos vivos pode ser resumida por sua notável capacidade de encontrar soluções que evitam, ou superam a complexidade.

Para ele, Simplexidade é

“O conjunto de soluções que os organismos vivos encontram que lhes permite lidar com informações e situações, levando em conta experiências passadas e antecipando experiências futuras. E tais soluções são novas formas de abordar os problemas para que as ações possam ser tomadas de forma mais rápida, mais elegante e mais eficiente.”

Nesse sentido o processo de busca pela simplificação propõe novas formas de compreensão de problemas. Que, porém, nunca é exatamente simples. Pois exige ações de escolha, recusa, conexão e imaginação para que possamos agir da melhor maneira possível. E isso pode ser bem complexo.


GEORGE DANTZIG

Método (Algoritmo) Simplex.

O Método Simplex foi criado pelo matemático americano George Dantzig, pesquisador da Universidade de Stanford, que contribuiu sensivelmente para a Ciência da Computação.

Simplex é um algoritmo que viabiliza soluções de problemas de programação linear, sendo otimizadas para problemas complexos que possuem muitas variáveis e restrições.

Em sua medida, também estabelece uma relação de simplificação da complexidade.

Mas... vou parar por aqui, pois posso me perder na explicação de algo que conheço muito pouco.


JEFFREY KUGLER

Simplexity: Why Simple Things Become Complex (and How Complex Things Can be Made Simple).

Em 2008, Jeffrey Kugler (que foi editor da revista Time e do jornal The New York Times) lançou um livro emblemático para os estudiosos do tema: “Simplexity: Por que Coisas Simples se Tornam Complexas (E Como Coisas Complexas Podem Ser Feitas de Maneira Simples)”. Nessa obra, ele analisa aspectos bastante diversos tanto da economia, como da medicina, dos esportes e do comportamento humano.

O título já diz muita coisa.

A ideia central de Kugler é a de analisar as relações por vezes paradoxais, entre a complexidade e a simplicidade. Segundo seus vários exemplos, coisas que parecem complicadas podem ser incrivelmente simples e coisas que parecem simples podem ser vertiginosamente complexas. Uma colônia de formigas pode ser mais complicada do que uma comunidade de pessoas. Uma frase pode ser mais rica que um livro.

Também faz reflexões originais de como um canudo pode salvar milhares de vidas, ou como um milhão de carros pode estar nas ruas, mas apenas algumas centenas deles podem levar ao engarrafamento.

Para o autor, há que se considerar a Simplicidade como uma nova ciência, que pode redefinir como vemos o mundo e melhorar nossas vidas em áreas muito diferentes como a economia, a biologia, a cosmologia, a química, a psicologia, a política, o desenvolvimento infantil, as artes e muito mais.


MARINO (MIN) SIDNEY BASADUR

The Simplexity Thinking Process / Simplex Problem Solving Process

Simplexity Thinking Processs, também conhecido como Simplex Problem Solving Process é um método de solução de problemas desenvolvido nos anos 90 pelo consultor e pesquisador canadense, conhecido como Min Basadur. Foi proposto pela primeira vez em seu livro The Power of Innovation de 1995.

O método parte do princípio: antes de resolver qualquer problema, é preciso identificá-lo com muita acuidade. Para Basadur, muitos erros de processo em inovação e solução de problemas, residem justamente neste ponto. E a sua abordagem de diagnóstico do problema seria o ponto central do método, é o que levaria a soluções mais criativas.

A similaridade com o Design Thinking é imediata, tanto que o próprio Basadur faz uma comparação entre os métodos, trazendo complementaridades e possibilidades de aplicações integradas.

Simplex Solving Process é dividido em 3 fases, subdividas em 8 etapas. A pergunta “Como podemos?” conduz as ações desde a descoberta do problema até a solução final. Na abordagem da Simplexidade, a complexidade vai sendo filtrada em etapas.


Fase 1: Formulação do Problema:

1. Descobrindo o problema

2. Averiguação

3. Definição do problema


Fase 2: Formulação da Solução

4. Descobrindo ideias

5. Avaliação e seleção

6. Planejamento


Fase 3: Implementação da solução

7. Aceitação

8. Ação


O método também resgata a importância do trabalho em grupos colaborativos e a busca incessante por romper bloqueios e preconceitos, ou seja: é preciso ter um mindset aberto na equipe. Também ressalta a relevância da proatividade para encontrar soluções, a pluralidade de pontos de vista e a clareza / objetividade para compreender os reais problemas que se apresentam.


MICHAEL REISS

Simplexity: A Hybrid Framework for Managing System Complexity.


O artigo

Michael Reiss é jornalista e professor da Universidade de Londres. Em 2019 publicou o artigo Simplexity: Uma Estrutura Híbrida para Gerenciar a Complexidade do Sistema, capítulo do livro Harnessing Knowledge, Innovation and Competence in Engineering of Mission Critical Systems (Aproveitando Conhecimento, Inovação e Competência em Engenharia de Sistemas de Missão Crítica) organizado pelo também professor da Universidade de Londres, Ali G. Hessami.

O foco do artigo (que eu diria bastante complexo!) é o gerenciamento da complexidade, algo necessário tanto para o gerenciamento do conhecimento, como para o gerenciamento de sistemas em organizações diversas. E o conceito de Simplexidade desenvolvido por ele, é um framework para esse fim.


Definindo o que é complexo

Mas antes de chegar ao framework, Reiss reflete sobre a importância e a dificuldade de compreensão do que é exatamente “algo complexo”. Ponderando sobre a necessidade de uma visão mais holística e precisa do termo.

Diferente da Simplicidade, Complexidade é algo abrangente e por vezes vago. Atrelado a outros termos como tamanho, massa, diversidade, ambiguidade, imprecisão, aleatoriedade, risco, mudança, caos, instabilidade e ruptura.

Em sua abordagem, é necessário compreender o que ele chama de “arquitetura da complexidade”. Pois a complexidade é caracterizada pelos seus multicomponentes, pela sua multidimensionalidade e por apresentar multidomínios. Com todos estes aspectos interconectados.


Simplexidade, algumas ressalvas

Em seguida, Reiss analisa o conceito de Simplexidade utilizado atualmente, pontuando algumas ressalvas. Simplexity é em realidade um conceito híbrido e ambivalente, mas ao mesmo tempo inovador e paradoxal. E relativamente sofisticado para ser tratado de modo superficial.

Segundo o autor, um dos problemas é que os modelos de Simplexidade existentes recomendam principalmente a solução de problemas “complexos” por meios “simples”. Mas faltam métricas apropriadas, tudo é muito estimado. Para Reiss, lidar com a Simplexidade de forma eficiente (cujos resultados são úteis e positivos) requer em essência a compreensão da sofisticada arquitetura da complexidade em si (e a conexão entre seus componentes, dimensões e domínios).


Facilidade e Simplicidade X Dificuldade e Complexidade

Outro aspecto interessante é a sua análise sobre a interface (bastante comum) entre facilidade e simplicidade X dificuldade e complexidade. Que, em realidade, por vezes não apresentam uma relação necessariamente direta. Ou seja, nem sempre o que é difícil é complexo, ou o que é fácil é simples (e vice-versa).

Um exemplo frequentemente abordado é a “escrita de uma carta curta”. Escrever uma carta curta pode ser difícil, porque elaborar e focar o conteúdo e sintetizá-lo, leva tempo. Portanto é algo que tem um input “complexo” (tempo e esforço na escrita), mas é acompanhado de um output ostensivamente simples (texto enxuto e objetivo).


Eficiência X Eficácia

Da mesma forma, decompor um problema em subproblemas torna a resolução mais fácil, mas simultaneamente também mais complexa, dada a tarefa adicional de integrar as soluções parciais. E aqui ele resgata a relação entre eficácia e eficiência, muitas vezes subestimada quando se argumenta que "regras simples funcionam melhor”. Ou seja, buscar a simplicidade pode ser eficaz, mas nem sempre eficiente.


Simplexity: um framework para o gerenciamento da complexidade

Ufa!

Pois é.

O framework proposto por Reiss estabelece uma relação de duas variáveis da complexidade: carga e potencial. Nesse diagrama, podemos encontrar um ponto de congruência (chamado de corredor central) pela dinâmica de redução e aumento estabelecida entre estas duas variáveis.

A congruência é alcançada (congruência é entendida quando realmente surgem soluções), quando carga e potencial de complexidade se tornam próximas do equilíbrio, quando se aproximam.

E desta forma, no contexto da Simplexidade, aumenta-se a eficiência quando se reduz a carga e o potencial da complexidade em si.


JOHN MAEDA

As Leis da Simplicidade. Design Tecnologia, Negócios e Vida.

John Maeda é um daqueles profissionais excepcionais e bastante plurais. Executivo, investidor, tecnólogo e designer especialista em product experience. Seu trabalho explora em profundidade as relações entre design, tecnologia e negócios. Atualmente é sócio do Maeda Studio e Diretor de Tecnologia da Everbridge (empresa de desenvolvimento de softwares).

Em 2006 lançou o livro As Leis da Simplicidade que se tornaria um best seller, traduzido em 14 idiomas e comercializado no mundo todo. Uma publicação que segundo o autor, foi contemporânea dos primeiros Ipods da Apple.

Na obra, Maeda resgata o poder, os benefícios e as possibilidades da simplicidade, sua relação com a complexidade, propondo sua aplicabilidade em diversas áreas de conhecimento.

Uma de suas boas reflexões, na minha opinião:

Quanto simples você consegue fazer algo? VERSUS Quanto complexo esse algo precisa ser?

Essa frase diz muito e talvez seja o ponto de partida para a construção das “leis”.

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Essas são as 10 “leis” proposta por Maeda:


Lei 1 – Reduzir. A maneira mais simples de alcançar a simplicidade é por meio de uma redução ponderada.

Lei 2 – Organizar. A organização faz com que um sistema de muitos pareça de poucos.

Lei 3 – Tempo. Economia de tempo transmite simplicidade.

Lei 4 – Aprender. O conhecimento torna tudo mais simples.

Lei 5 – Diferenças. Simplicidade e complexidade necessitam uma da outra, parece estranho, mas é verdade. A diferença é a força motriz da inovação, da mudança.

Lei 6 – Contexto. O que reside na periferia da simplicidade é não-periférico. Fazer sentido depende do contexto.

Lei 7 – Emoção. Mais emoções é melhor que menos.

Lei 8 – Confiança. Como diria o Mestre Yoda: Na simplicidade nós confiamos

Lei 9 – Fracasso. Assim como no empreendedorismo, falhar faz parte. Algumas coisas nunca podem feitas de modo simples.

Lei 10 – “The One”. A simplicidade consiste em subtrair o óbvio e acrescentar o significativo.


JULIA HOBSBAWM

The Simplicity Principle: Six Steps Towards Clarity in a Complex World.

Mais ou menos com o mesmo propósito de Maeda, Julia Hobsbawm publicou recentemente em 2020 sua visão de como conquistar a simplicidade, passo a passo. Julia é escritora, palestrante, consultora e colunista do Bloomberg Work Shift (e tem diversos outros livros muito interessantes).

Em O Princípio da Simplicidade: 6 Passos para a Clarificação em um Mundo Complexo, ela reflete quanto a evolução tecnológica impulsionou a complexidade no mundo, mas que ao mesmo tempo, o ser humano ainda prefere a simplicidade.

Julia resgata o conhecimento da Natureza, analisando em especial o universo das abelhas: como constroem a própria vida e como vivem em sociedade. Segundo a autora, as abelhas usam uma estrutura clara, simples e conectada hexagonalmente (as colméias). Não à toa, na Natureza, o hexágono é a forma mais resiliente e eficiente em termos de uso do espaço.

Partindo desse conceito, ela introduz a ideia de Hexagon Action (Ação Hexagonal) como um meio, um percurso para simplificar nossas vidas e alcançar o bem-estar.

Para cada face da estrutura hexagonal corresponde um elemento: Claridade (ou Clarificação), Individualidade, Reset, Conhecimento, Network e Tempo.

Segundo Julia, ao abordar a complexidade em cada uma dessas áreas, podemos alcançar um estado mais feliz, onde estamos mais conectados a nós mesmos.

E mais que isso, as nossas atitudes podem influenciar positivamente outras pessoas.

Quando você é claro sobre alguma coisa, os outros também alcançam a clarificação. Portanto, ser claro é um ato de generosidade.

Simplexity & Design.


Desde o primeiro dia, designers equilibram simplicidade com complexidade. Dan Montano (designer).
Bom design está no centro da solução Simplexity. Bom design é pegar o que é possível e criar o que é bom, certo, fácil e bonito. Susan Abbot (designer).

A relação entre complexidade e simplicidade para o Design é muito direta.

Para fazer e aplicar Design é preciso boas doses de compreensão de um determinado contexto, somada ao desenvolvimento criativo de soluções que sejam viáveis e que ao mesmo tempo sintetizem (ou atendam) outras boas doses de requisitos, dos mais diversos e complexos.

Na minha opinião, já reside na essência do Design a ideia de Simplexidade. Desde sempre. Como já nos disse aqui em cima Dan Montano.

De modo bastante resumido, no campo do Design, Simplexidade significa eliminar excessos e elementos desnecessários, valorizando a essência, a funcionalidade e a boa usabilidade.


SUSAN ABBOTT

Gosto muito da visão da designer Susan Abbott (você já deve ter percebido em suas citações por aqui).

Para ela é fato: no mundo contemporâneo buscamos incessantemente tornar as coisas mais simples. Porém, essa simplicidade precisa dar conta de necessidades cada vez mais complexas. E nesse contexto, não basta apenas tornar algo mais simplificado de modo simplista ou reducionista, eliminando características, funcionalidades ou escolhas.

Sendo assim,

“A nova simplicidade leva complexidade e adiciona design e usabilidade para tornar as coisas cada vez mais funcionais e melhores para nós seres humanos”.

Segundo Susan:

“Simplexity É a Nova Simplicidade. Precisamos de simplicidade e complexidade juntas. Precisamos de complexidade simples. O que queremos é SIMPLEXIDADE”.

E ser bom em Simplexidade pode ser um fator essencial de diferenciação entre marcas, produtos e serviços:

“Se você quiser se diferenciar, comece a procurar maneiras de trazer funcionalidades poderosas, que sejam úteis, em um formato muito simples”.

ORA ITO

O designer francês Ora Ito, que já realizou projetos para empresas como Swatch, Heineken, Gorenje, Citröen, Cassina e Reebook, tem como filosofia de trabalho justamente o conceito de Simplexidade.

Para ele, quanto mais os objetos são simples de usar, mais a relação do usuário se torna intuitiva, fácil e natural.

Ora Ito já desenvolveu projetos em diversas áreas, que vão desde produtos de consumo, como arquitetura e interiores. A marca do seu trabalho pode ser descrita pela linguagem minimalista, orgânica e futurista, ao mesmo tempo que atemporal e sofisticada.


DIETER RAMS

Formado em arquitetura pela escola alemã de Wiesbaden, Dieters Rams é um dos precursores do Design contemporâneo (até então chamado de desenho industrial) e um dos mais influentes designers do século XX. Impactando posteriormente figuras como Jonathan Ive, designer da Apple.

Atuou durante cerca de 30 anos na Braun, sendo responsável por diversos produtos ícones da marca. Alguns deles fazem parte do acervo do Moma de Nova York.

Mas uma de suas principais contribuições ao Design foi a reflexão consistente sobre o que seria “Bom Design”. Em 1970, Rams introduziu a ideia de desenvolvimento sustentável e passou a questionar a obsolescência, o que para ele era um “crime do design”.

Como resposta à pergunta: "Meu design é um bom design?” Rams desenvolveu o que ficou mundialmente conhecido como os 10 Princípios do Bom Design.


E qual a relação com o conceito de Simplexidade?


Dos 10 princípios, poderíamos citar pelo menos 4 que remetem à essência da relação entre complexidade e simplicidade:

2. Bom design.... faz um produto ser útil. Um produto é comprado para ser usado. Ele tem que satisfazer não apenas o critério funcional, mas também o psicológico e estético. Um bom design enfatiza a utilidade de um produto enquanto exclui qualquer coisa que poderia prejudicá-la.

4. Bom design... Ajuda a entender o produto. Ele esclarece a estrutura do produto. Melhor que isso, ele pode fazer com que o produto expresse claramente sua função fazendo uso da intuição do usuário. No melhor dos casos, ele é autoexplicativo.

5. Bom design... É discreto. Produtos que atendem a um propósito são como ferramentas. Eles não são objetos decorativos nem obras de arte. Seu design deve, desta forma, ser neutro e contido, deixando espaço para a expressão do usuário.

10. Bom design... É o menos design possível. Menos, porém, melhor - porque ele se concentra nos aspectos essenciais, e os produtos não são carregados com detalhes não essenciais. Um retorno à pureza e à simplicidade.

Less, but better.

STEVE JOBS

Steve Jobs dispensa apresentações, né?

Um dos fundadores da Apple, também responsável pelo surgimento da Pixar e da Next. E um dos maiores visionários sobre as possibilidades da tecnologia, responsável por torná-la mais acessível e próxima do consumidor contemporâneo comum.

Não desmerecendo sua biografia e todos os seus feitos, mas aqui quero me concentrar na relação que Jobs tinha com dois conceitos, que segundo ele mesmo, era seu mantra: “foco e simplicidade”.

Talvez sua visão da simplicidade, exercitada de forma quase implacável, seja exemplo do quanto essa busca era profunda e cheia de significado. Os produtos da Apple tornaram-se ícones e exemplos tangíveis dessa sua ideia e da aplicação da “Simplicidade no Design”.

Simplicidade estava na essência e tinha um porquê. Era o ponto de partida para se chegar a algumas características importantes para um produto relevante como: a boa experiência individual, a facilidade de uso, o user friendly, a intuitividade e até mesmo a diversão. Pode-se dizer que muito do que a gente chama de “tecnologia amigável” vem daí.

Ah, também simplicidade estava atrelada à estética, pois para Jobs “A simplicidade é a sofisticação definitiva.” Sim, os produtos da Apple eram (e são) elegantes, clean, sofisticados.

Mas o caminho da simplicidade não é fácil. Envolve se aprofundar na complexidade para compreender a sua essência. É trabalho duro, mas que vale à pena. E sim, o simples pode ser mais difícil que o complexo:

“O simples pode ser mais difícil do que o complexo: você precisa trabalhar duro para deixar seu pensamento limpo e torná-lo simples.”
“É preciso muito trabalho para fazer algo simples, para realmente entender os desafios que não são explícitos e encontrar soluções elegantes. (…) não é apenas minimalismo ou ausência de desordem. Envolve se aprofundar na complexidade. Para ser verdadeiramente simples, você tem que ir muito fundo. (…) você tem que entender profundamente a essência de um produto para poder se livrar das peças que não são essenciais.”

Simplexity e as Empresas.


GOOGLE / Um canivete suíço. Fechado.

Para muitos, a página inicial do Google é um dos melhores exemplos de Simplexidade.

Marissa Mayer co fundadora da Lumi Labs, foi Ceo da Yahoo e também vice-presidente de serviços geográficos e locais do Google. Ela é assertiva quando descreve o conceito da página do Google.

Considerada no meio como uma “alta sacerdotisa da simplicidade” e bastante próxima das ideias de Steve Jobs, para falar do Google, Marissa faz uma analogia interessante da página com um canivete suíço. Ela pontua quanto funcionalidades complexas podem ser amigáveis às pessoas por meio da simplicidade. E o quanto isso faz diferença.

"O Google tem a funcionalidade de um canivete suíço realmente complicado, mas a página inicial é a nossa maneira de abordá-lo fechado. É simples, é elegante, você pode colocá-lo no bolso, mas é um ótimo acessório quando você precisar. Muitos de nossos concorrentes são como um canivete suíço aberto - e isso pode ser intimidante e ocasionalmente prejudicial."

PIXAR / Simplexity: keep it simple.

Uma das estratégias da Pixar utilizadas em seu processo de criação e design é o conceito que eles denominam “Simplexidade”.

Segundo Kim Robledo Diga (uma especialista em Pixar e diretora do Cooper Hewitt Smithsonian Design Museum de Nova York) para a Pixar, Simplexity é uma maneira de “simplificar uma imagem até sua essência”.

“Por exemplo, no filme Divertidamente, a Raiva é um quadrado, a Tristeza é uma lágrima e o Medo é um ponto de interrogação. Eles variam esse elenco de personagens atribuindo-lhes formas simples e, em seguida, individualizam-nos, dando-lhes textura, cor e detalhes.”

Ao estabelecer um conjunto de técnicas simples que parecem quase elementares, com essa base, a Pixar consegue criar personagens e ideias novas, repetidamente.


PHILIPS. Sense and Simplicity.

Em 2004, a Philips tomou uma decisão estratégica a nível mundial, tendo como base um conceito forte e aplicável em diversas esferas do negócio, passando pelo branding, pela comunicação e pelo desenvolvimento de produtos e serviços.

O conceito, sintetizado em duas palavras Sense (Sentido) e Simplicity (Simplicidade), se desdobrou em um amplo projeto de reposicionamento do negócio e até mesmo de transformação cultural da empresa. Fruto de um processo intenso e profundo de pesquisa junto ao seu consumidor.

A premissa: “a simplificação da vida com o uso sensato da tecnologia promove o bem-estar”.

E nesse sentido, a simplicidade passa a ser entendida como um elemento chave, numa outra forma de fazer negócio.

Rudy Provoost, na ocasião CEO da Philips, resumiu a ideia, pontuando a necessidade estratégica de simplificar as coisas:

"Muitas vezes temos visto a inovação impulsionada pela tecnologia e para a tecnologia... enquanto a simplicidade deve estar no centro da experiência do consumidor. Nossos resultados de pesquisa e percepções do consumidor sugerem que o público está, de fato, cansado. Cansado de não poder gravar um programa na TV... cansado de passar horas lendo um manual de instruções... cansado da complexidade por si só..."

Em sua análise, chegaram à conclusão de que ao longo dos anos o portfólio da empresa foi sendo ampliado de forma a atender uma diversidade tecnológica, mas que ao mesmo se tornou muito complexa para o consumidor.

Sense and Simplicity passa a ser a “brand promise” (a promessa da marca).

E como desdobramento desse conceito, o Design de Produto passou a incorporar 3 princípios:

  • Designed around you (projetado para você) – o desenvolvimento é feito com base em cuidadosas pesquisas e descobertas junto aos clientes.

  • Easy to experience (fácil de experimentar) – o produto é simples de usar.

  • Advanced (avançado) – utilizamos tecnologias líderes de mercado.

Um dos pontos importantes para essa estratégia foi a criação de um laboratório de estudos da Simplicidade, o Simplicity Advisory Board (SAB). Um conselho independente formado por especialistas em diversas áreas como tecnologia, moda, saúde, design e arquitetura. Todos com o pressuposto de trazer um olhar externo à empresa sobre o estado da arte da simplicidade.

A estratégia Sense and Simplicity evoluiu e atualmente a Philips passou a se posicionar como:


"Our brand:

(...) Como uma marca de tecnologia que se preocupa com as pessoas e o planeta, ouvimos, descobrimos e desafiamos, a fim de oferecer inovação significativa às pessoas com uma crença consistente – sempre há uma maneira de tornar a vida melhor.
Moldando experiências através do design centrado no ser humano.

 

DICAS FINAIS. Como aplicar a Simplexidade, afinal?


Pois é, se você chegou até aqui (obrigada!), percebeu o quanto a relação entre simplicidade e complexidade é relevante para construir soluções para o mundo contemporâneo.

Apesar do textão, juro, procurei trazer um olhar bastante resumido das possibilidades da Simplexidade, segundo alguns teóricos, pesquisadores, designers e empresas muito diferentes entre si.


E para finalizar, aqui gostaria de dar algumas dicas, fruto das minhas conclusões estudando sobre o tema:

  1. Depure a complexidade e não fuja dela. Não a ignore. Procure identificar e compreender as variáveis que estão em jogo no seu contexto. Tente dimensioná-las e analisar quais as conexões entre elas. Com isso você pode dominar a complexidade. (Vai com fé). E aí começar a simplificar as coisas.

  2. Nem tudo é problema. Já falei isso em outras ocasiões. Apesar de termos toneladas de problemas por aí, as empresas não são feitas somente para resolver problemas (ou “curar dores”). Mude um pouco o seu mind set e olhe para empresas (por exemplo) que estão no setor da Economia Criativa, ou do Entretenimento, ou da Moda, ou da Arte, etc. As marcas e as empresas também são feitas para inspirar, para conectar, para surpreender, para divertir, para atender a desejos (e dos mais esquisitos, não importa!).

  3. Projeto e Processo. Em qualquer tipo de trabalho, é preciso compreender que podem existir etapas ou tarefas de caráter mais contínuas (Processo) e outras de caráter mais pontuais, que tem começo, meio e fim (Projeto). Compatibilizar simplicidade com complexidade também exige essa compreensão, se não tudo vira apenas “trabalho”. E claro, cada uma dessas coisas dão resultados diferentes.

  4. Foco na divergência. Em todo o processo de solução de problemas, ou de desenvolvimento de alguma coisa, existe uma fase de divergência, de pesquisa, de imersão que é superimportante. Mas é preciso ter foco para se aprofundar. Ter minimamente uma ideia, ou o porquê estamos pesquisando determinada coisa. Caso contrário, pode ser só divagação.

  5. Liberte a intuição. Contraditoriamente ao que falei exatamente aqui em cima (ha, ha, ha, mundo complexo, lembra?), peço encarecidamente que você e sua equipe deem importância para esse elemento, muitas vezes negligenciado. Um mundo que nos exige o tempo todo que sejamos criativos, não tem como isso acontecer, se a gente não respirar e deixar a intuição falar com a gente. Beleza? Vale à pena.

  6. Conceituar. Esse é um passo importante que todo designer conhece. Conceituar é chegar em alguma conclusão relevante de como uma solução pode acontecer. É um passo além da geração de ideias. E na minha opinião é essencial para compatibilizar complexidade com simplicidade. É como os requisitos serão atendidos de forma viável, esteticamente agradável e tecnicamente possível. Conceituar é o que torna uma ideia realmente original e autêntica. Ponto final.

  7. O poder dos objetivos. No campo do desenvolvimento de produtos, se a gente realmente quer simplificar algo que pode ser complexo, tenha em mente: os objetivos são a essência da coisa toda. E vêm primeiro. Você pode ter muitos deles, inclusive podem até ser incompatíveis à primeira vista. Chegar em objetivos relevantes para o seu produto, não é fácil, exige a etapa anterior de pesquisa, imersão, conceituação. Mas é fundamental. São eles que vão definir os requisitos do produto que realmente importam. Os objetivos vão se desdobrar em funções e somente depois vão demandar componentes. Essa é uma das premissas da metodologia DIP (Desenvolvimento Integrado de Produtos, utilizada pelo ITA). Não inverta a ordem, beleza?

  8. Ser simples não é ser simplista. Acredito que Jobs já deixou isso muito claro, chegar na simplicidade não é fácil. Exige esforço, critério e estratégia. Se você apenas elimina elementos, você pode eliminar muita coisa boa junto: uma função, uma experiência, a compreensão de alguma coisa, a percepção de valor. Pois não era ele mesmo que queria que o design da placa eletrônica fosse esteticamente bonito (e que nenhum cliente iria ver)? Pois é. Pense nisso.

  9. Tempo e pressão. Bom, eu diria que fazer tudo "rapidinho e facinho", nem sempre dá certo. Pois é, mas tempo é dinheiro e vivemos o tempo todo com pouco tempo. Mas chegar no simples, compreendendo bem o complexo (e dando conta dele), pode levar um certo tempo. Então como é que faz? Podemos pensar que para valer a pena (levar mais tempo, por exemplo), precisa compensar. E ter equilíbrio. O tempo pode ser a variável da complexidade mais difícil da gente lidar. Sorry.

  10. Mais que facilitar, descomplique. Por favor lembre disso em tudo que fizer daqui pra frente. Na sua vida pessoal, profissional, não importa. Não estamos fugindo da complexidade, lembra? Mas podemos muito bem reduzir o complicado. Na minha opinião, complicado é aquilo em que já sabemos que poderia ser feito de um jeito mais simples, e melhor, mas que a gente não se dá conta pela nossa desatenção do dia a dia.


É isso gente.

Bora simplificar! Mas com significado.


Make it simple, but significant.

Don Draper (da série Mad Man).



REFERÊNCIAS


JACK COHEN & IAN STEWART. The collapse of chaos. Discovering simplicity in a complex world.

ALAIN BERTHOZ. Simplexity: Simplifying Principles for a Complex World.

JEFFREY KUGLER. Simplexity: Why Simple Things Become Complex (and How Complex Things Can be Made Simple).

MICHAEL REISS. Simplexity: A Hybrid Framework for Managing System Complexity.

JOHN MAEDA. As Leis da Simplicidade. Design Tecnologia, Negócios e Vida.

JULIA HOBSBAWM. The Simplicity Principle: Six Steps Towards Clarity in a Complex World.

WALTER ISAACSON. Steve Jobs.

WARD HOWEL. PHILIPS. How a brand promise drives change in a multinational organization.


 

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